Afogados: Lake Lanier – Parte 3

Resumo: Depois de entrar na cabana mais distante, Mark encontra Elias, um homem marcado por uma tragédia antiga em Lake Lanier. Mas quando ele retorna ao grupo, uma mulher chamada Lottie Mae Holloway oferece uma versão diferente da história.

Tempo aproximado de leitura: 8 minutos.

Ainda não leu a parte anterior? Antes de continuar, leia Afogados: Lake Lanier – Parte 2 e descubra como Mark encontrou a cabana isolada que revelou os primeiros sinais do horror escondido em Lake Lanier.

O homem na cabana

a cabana

Lake Lanier, Geórgia Estados Unidos, 10 de junho de 1988.

O homem estava ali.

Parado na frente de Mark.

A pele negra, marcada pelo tempo e por algo mais profundo que a idade.

Os olhos… atentos demais.

Como quem observa uma ameaça há muito tempo.

— Irmão…

Mark travou.

— Você… mora aqui?

O homem não respondeu de imediato. Apenas olhou ao redor.

Depois voltou os olhos para Mark.

— Você não devia estar aqui… tem que sair daqui rápido.

Não era uma ameaça.

Era um aviso.

E havia urgência.

— Eu estava te procurando.

Mark disse, tentando manter a voz firme.

— A gente é irmão, cara. Pelo menos aqui, devia olhar um pelo outro.

O homem cortou seco:

— Não.

Deu um passo à frente.

— Você não me achou.

O silêncio voltou a pesar, mas agora com algo novo.

Direção.

O homem deu mais um passo.

E algo no ambiente reagiu.

Como se a casa reconhecesse o movimento.

— Escuta com atenção…

Disse o desconhecido em tom moderado.

— Você precisa ir embora agora… e levar seus amigos com você.

Mark franziu o rosto.

Estava confuso e, ao mesmo tempo, resistente a tantas ordens para partir.

— Por que você só fica falando pra eu sair daqui?

— Qual é o seu problema?

O homem respirou fundo.

E, por um segundo, o peso nos olhos dele mudou, virando algo mais antigo.

— Porque você ainda pode.

A frase ficou no ar.

Então ele completou:

— Eu estou cansado da vingança da minha irmã… ela nunca acaba.

— Os brancos não deram uma chance para ela.

Mark hesitou.

— Pra quem?

O homem demorou a responder.

Não por dúvida.

Mas porque dizer aquilo era trazer tudo de volta.

— Minha sobrinha.

O clima mudou.

Ficou pesado.

A história de Elias

a história da cabana

— Há mais de vinte anos, minha irmã morava com o marido e a filha nesta cabana. A mais afastada de todas. Já era assim para que ninguém nos procurasse.

Ele olhou para as paredes, como se cada madeira soubesse o resto.

— Mas isso não impediu que um grupo como o seu encontrasse ela. Jovens, brancos, rindo alto, achando que nada podia tocar neles.

Mark ficou imóvel.

— Muita bebida, arrogância e leis que sempre favoreciam os mesmos.

O homem apertou a mandíbula.

— Resultado: minha sobrinha foi afogada. Depois, ainda tentaram esconder o corpo. Meu cunhado saiu para procurar a filha e também perdeu a vida.

A voz dele falhou por um instante.

— Acidentes. Foi assim que ficou escrito na justiça dos brancos.

Mark absorveu todo aquele peso.

— Isso não foi acidente…

A frase saiu baixa.

Sem força para virar discurso. Sem distância suficiente para virar opinião.

— Esses desgraçados sabiam o que estavam fazendo.

O homem olhou direto para ele.

Silêncio.

— Ninguém foi punido… a não ser minha irmã, que nunca mais foi a mesma.

— No final, eu vim para cá, para cuidar dela.

A madeira estalou, como se concordasse.

— Mas já era tarde.

Mark respirou mais forte.

— Mas meus amigos não têm nada a ver com isso.

— Eu sei.

A resposta foi imediata.

— Por isso vocês têm que sair daqui agora.

Mark estava confuso por dentro, mas achou melhor sair dali rapidamente.

Com algumas passadas, já estava do lado de fora da cabana.

Algum tempo depois, estava na trilha de volta.

Ele não andava.

Corria…

Lottie Mae Holloway

Chegando próximo da cabana, Mark notou seus amigos conversando com uma mulher desconhecida.

— Olha ele aí… estava com meu irmão Elias, não estava?

A senhora era negra, de meia-idade, vestia roupas velhas e sorria com uma calma estranha.

— Sim, acredito que sim… estava…

Mark ficou surpreso.

Não esperava encontrá-la junto dos seus amigos.

— E vocês? O que está acontecendo aqui?

A mulher deu um pequeno passo à frente.

— Me chamo Lottie Mae Holloway. Prazer em conhecer você.

Ela olhou para Amanda.

— Inclusive, tive o prazer de conhecer sua irmã… ela é uma jovem linda. Da idade da minha filha.

Mark ficou ainda mais confuso.

— Sua filha…

A senhora Holloway olhou fixamente para ele.

— Sim. Sarah. Deve estar pelo acampamento. Provavelmente no lago.

Mark sentiu algo apertar no peito.

— Tem algo estranho aqui… seu irmão me falou algumas coisas sobre a senhora e sobre sua filha.

— Ah, sim… acredito que tenha falado.

Ela abaixou a cabeça em um curto silêncio.

Amanda murmurou, tentando explicar:

— Ela disse que o irmão está doente da cabeça. Que não fala coisa com coisa.

Lottie Mae respirou fundo.

— Sim… verdade. Meu irmão perdeu a razão e fica assustando os visitantes com histórias antigas.

Depois olhou novamente para Mark.

— O que Elias te contou?

Mark hesitou.

— Disse muitas coisas… bem assustadoras, inclusive.

— Que tipo de coisas?

— Disse que sua filha tinha sido morta anos atrás. Disse também que tudo acabou em acidente, sem punição, porque eles eram brancos.

Uma troca de olhares de pesar aconteceu naturalmente entre os amigos.

Não por dúvida.

Mas por pena do irmão louco da senhora.

Naquele momento, Rachel olhou bem nos olhos vazios de Lottie Mae e percebeu que havia algo errado.

Como quando o cérebro reconhece um padrão quebrado antes de entender o motivo.

Mas Rachel já não estava totalmente ali.

— Elias está cada vez pior.

Disse Lottie Mae.

— Mas não é perigoso. Podem ficar tranquilos.

Ela abriu um sorriso discreto.

— Inclusive, vou deixar minha filha Sarah ficar com vocês um pouco.

Amanda tentou responder com gentileza:

— Legal… ficaremos felizes em conhecer a Sarah.

Lisa concordou.

Travis só assentiu e esvaziou sua lata de cerveja.

Kevin analisou toda a conversa e, no final, tentou tranquilizar Rachel. Ele percebeu que aquela história tinha mexido com ela novamente.

Mark simplesmente aceitou.

O relato de Lottie Mae era mais racional.

A história tinha encaixado para ele.

Era só isso.

Um homem perturbado.

Uma senhora tentando manter tudo sob controle.

Simples assim.

— Vamos aproveitar, galera…

Ele disse, já seguindo para a cabana.

O grupo se dispersou naturalmente depois disso.

Lottie Mae Holloway também partiu, após uma despedida calorosa demais para aquele lugar.

A água perfeita demais

O lago estava perfeito.

Água calma.

Reflexo limpo.

Quase convidativo demais.

As risadas eram altas.

Quase em excesso.

Como se precisassem ocupar o silêncio daquele lugar.

Mark entrou bem depois, já em outra vibe.

Rachel continuou fora.

Desta vez, Kevin entrou.

E o tempo seguiu.

O sol começou a cair.

Lisa foi a primeira a levantar.

— Ok… isso aqui já deu pra mim.

Ela bateu as mãos na areia e olhou para Mark.

— Eu vou voltar.

Mark hesitou, mas acabou concordando.

— Eu vou contigo.

Kevin olhou para Rachel.

— Quer ir?

Ela assentiu na hora.

Sem pensar.

Sem olhar para trás.

— Vamos.

Travis e Amanda ficaram.

Rindo.

Flutuando.

Distantes demais.

— Já vamos!

Travis gritou.

O grupo que saiu começou a subir pela trilha até a cabana.

Ela os esperava como um refúgio.

Ou algo que se passava por um.

O casal no lago

Escureceu rápido, mas o casal não queria saber de nada.

Com água na cintura, seus corpos executavam movimentos lentos, íntimos e rítmicos.

A água estava fria.

Mas eles queimavam como brasa.

Até que o movimento parou.

Já estava na hora de sair.

Amanda saiu primeiro e começou a se vestir.

A expressão do seu rosto era visível.

Expectativas atendidas.

Travis se recompôs por alguns segundos, ainda dentro da água, já se preparando para sair.

Uma vez vestida, Amanda virou-se para chamá-lo.

Travis não estava mais sozinho.

Mesmo com apenas a luz natural da lua, foi possível notar a presença de alguma coisa atrás dele.

A forma era de uma pessoa.

Mas havia algo errado.

Errado demais para ser apenas uma pessoa.

Amanda tentou chamar o nome dele.

A voz não saiu.

A água atrás de Travis se mexeu.

Devagar.

Como se o lago tivesse começado a respirar.

E então Amanda gritou…

a cabana e a criatura

Continua

Na próxima parte, Lake Lanier deixa de sussurrar — e finalmente mostra o que estava escondido sob a água.

Siga para a Parte 4

Referências:

Embora Afogados faça parte do universo ficcional do Último Refúgio RPG, parte da atmosfera do conto nasce de um lugar real: Lake Lanier, na Geórgia.

Aproveite também para conhecer uma das maiores influências do horror cósmico no universo Último Refúgio RPG. O livro proibido criado por H. P. Lovecraft ajuda a entender melhor a ideia de conhecimento perigoso, maldições antigas e forças que a humanidade jamais deveria despertar. Leia também: O Necronomicon: o livro proibido que virou lenda no horror cósmico.

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