Afogados: Lake Lanier – Parte 1

Resumo: Em junho de 1988, um grupo de jovens universitários chega a Lake Lanier para um fim de semana de verão. Mas Rachel percebe, antes dos outros, que há algo errado na água.

Tempo aproximado de leitura: 6 minutos.

O Verão de 1988

University of Georgia, Geórgia — Estados Unidos, 10 de junho de 1988.

lake lanier

O verão de 1988 chegou cedo à Geórgia.

No campus da University of Georgia, o calor grudava nas paredes de tijolo e no asfalto como se o tempo tivesse decidido desacelerar. As aulas estavam acabando, e com elas vinha aquela sensação jovem de liberdade: planos improvisados, viagens de fim de semana e promessas que ninguém precisava cumprir.

Todo ano era assim.

Grupos se formavam, se desfaziam e se reorganizavam em torno de destinos pequenos demais para serem importantes. Lagos, chalés, parques esquecidos. Lugares onde o barulho da vida diminuía o suficiente para que qualquer coisa pudesse acontecer sem grande consequência.

Pelo menos era o que todos acreditavam.

Naquela tarde, o corredor da universidade estava tomado por vozes, passos e armários sendo fechados com força. Era mais um dia terminando — e mais uma desculpa para sair dali.

— Gata, então tá fechado?

Travis perguntou, apoiado no armário de metal como se aquilo fosse uma extensão dele mesmo.

Alto, loiro, confiante demais para alguém daquela idade, ele já sorria como se a resposta fosse certa.

— Festa no lago?

— É hoje!

— Dormir? Talvez.

— Beber? Com certeza.

— Claro!

Lisa Harper confirmou como era para ser. Depois perguntou pela namorada dele, só para provocar.

Risadas se espalharam com a chegada de Amanda e Kevin.

Kevin ajustou os óculos antes de falar:

— A previsão diz que vai chover amanhã.

Amanda já abraçava Travis, quando questionou:

— E aí, gato, sentiu minha falta?

Até as falas de Amanda seguiam um roteiro. Mas Travis estava apaixonado, e nada parecia óbvio para ele.

O grupo se conhecia desde a adolescência. Rachel, porém, nunca parecia ocupar o centro. Morena, cabelos presos de forma simples, olhar atento a tudo. Aparência normal.

Ela sempre estava por perto. Mas parecia com alguém que observava de fora.

Agora só faltava Mark.

— Cadê seu irmão gata?

Travis perguntou, impaciente. Ele sempre era o ultimo a chegar.

Rachel sempre muito observadora, nunca gostou daquela dinâmica ao redor dele, mas também nunca se afastou completamente.

Talvez fosse nostalgia.

Talvez não quisesse se permitir fazer novas amizades… talvez fosse algo mais difícil de nomear.

Marck surgiu minutos depois, vindo do lado de fora.

— E aí, pessoal?

— O estoque do final de semana está garantido.

Ele falava com calma, como sempre.

Marck era centrado, politizado, estortista e militante das causas racistas… Se não passasse tanto tempo “doidão”, talvez virasse político algum dia.

Cada um avisou em casa da sua forma, mas Mark avisou por sua irmã também.

Pouco depois, estavam dentro do Ford Mustang de Travis.

— Vamos, galera!

A impaciência dele não era com o tempo. Era com o silêncio entre as coisas.

A estrada para Lake Lanier

A saída do campus foi lenta.

Trânsito de final de tarde, alunos atravessando sem olhar, bicicletas cortando caminho e a cidade ficando para trás.

A estrada até Lake Lanier foi longa o suficiente para cansar, mas curta demais para desacelerar o grupo.

Música alta.

Risadas.

Garrafas passando de mão em mão.

Travis dirigindo como quem precisava provar algo para alguém invisível.

Kevin manteve os olhos na estrada mais do que no próprio Travis.

Rachel ficou olhando pela janela.

Árvores fechadas.

Sombras mais densas.

Curvas que engoliam a estrada por segundos demais.

Algumas placas indicavam áreas do parque, trilhas e zonas de recreação. Muitas estavam tortas. Outras parcialmente apagadas.

Até então, Lake Lanier era apenas um nome em placas tortas e conversas apressadas.

— Lugar abandonado… típico lugar onde um assassino serial branco atacaria um grupo de jovens que decidiu curtir o fim de semana com alguns baseados.

Murmurou Mark.

— Melhor assim, não acha, Kevin?

Travis respondeu, capcioso.

— Para mim tanto faz. O importante é relaxar com esta paradinha aqui.

Kevin exibiu um baseado para Rachel.

Logo, todos estavam rindo de novo.

Seguindo pela estrada, uma placa indicou o desvio para o acampamento de Lake Lanier.

O acampamento

lake lanier

O acampamento de Lake Lanier não era exatamente velho. Mas o aspecto de abandono estava muito claro.

A curiosidade conduziu a uma exploração na hora seguinte…

Algumas cabanas tinham madeira inchada, pintura descascando e pisos que rangiam sob passos mais pesados. Contudo, havia uma única estrutura suficiente para manter o lugar funcional, mas não acolhedor.

Antes do cair da noite, os jovens já tinham se estabelecido na cabana.

Um dos quartos já tinha sido ocupado pelo casal Travis e Amanda. Agora restou definir onde os demais amigos iriam dormir, considerando que só restava um quarto.

Inclusive, este quarto possuia um beliche visualmente funcional. Madeira e trabalho de boa qualidade definia aquele acampamento.

Mas ainda sim, não tinha nada de muito acolhedor naquele local.

O lago que dá nome ao acampamento ficava além de uma fileira irregular de árvores.

Entusiasmados, eles o viram antes de chegar perto.

E, por um instante, ninguém disse nada.

A água estava escura.

Não turva. Apenas profunda demais na aparência, como se absorvesse a luz ao invés de refleti-la.

— É maior do que eu pensei — disse Lisa, maravilhada.

— É fundo pra caramba também.

A voz veio atrás deles.

O grupo virou.

O homem negro, alto, usava roupas simples, relativamente antigas para a época, camisa manchada que já deveria ter sido substituída anos antes.

Um maço de chaves preso à cintura tilintava de forma irregular quando ele se movia.

— Vocês vieram passar o fim de semana?

Travis respondeu primeiro.

— Sim. Por quê?

A amizade com Mark garantiu pouca hostilidade com ele, que responde logo em seguida:

— Nenhum… Só que já fazem anos que ninguém aparecia por aqui.

O desconhecido interrompeu a própria resposta. Seus olhos passaram pelo grupo com atenção demais. Quando pararam em Rachel, permaneceram ali um pouco mais do que deveriam.

Não havia ameaça.

Mas também não havia conforto.

— Evitem ficar na água depois do pôr do sol.

— Por quê irmão?

Mark questionou, já querendo confiar dele, só por compartilharem a mesma cor de pele.

O homem deu de ombros.

— Porque as águas de Lake Lanier são muito geladas. Pode causar hipotermia.

E saiu.

Mark completou rápido:

— Você está seguro entre nós irmão… caso queira voltar.

O som das chaves se arrastando pelo silêncio pareceu durar mais do que deveria.

A água de Lake Lanier

O restinho da tarde passou rápido.

Rápido demais.

Rápido demais para que alguém percebesse que o vento havia morrido aos poucos.

Rápido demais para notar que os pássaros já não atravessavam as árvores com a mesma frequência.

Rápido demais para entender que o Lake Lanier permanecia imóvel demais para um lugar daquele tamanho.

Travis foi o primeiro a entrar na água.

Tirou a roupa chamando atenção para si e entrou como se o lago também precisasse obedecê-lo.

— Tá tranquilo! — gritou.

Amanda foi logo atrás.

Depois Lisa.

Depois Mark.

Kevin hesitou.

Rachel também.

— Vocês não vão entrar? — Amanda gritou.

Rachel relutou por um tempo, enquanto Kevin tentava acender o baseado.

Ao ver Kevin se engasgar com a fumaça, Rachel quase sorriu.

Era ridículo.

Familiar.

Seguro de um jeito idiota.

Por alguns segundos, ela quis acreditar que Lake Lanier seria apenas mais uma lembrança constrangedora de verão.

Então decidiu seguir a onda do pessoal e se aproximou da água…

O primeiro passo afundou na margem fria.

E imediatamente algo se deslocou dentro dela.

Não era dor.

Nem frio.

Apenas uma sensação de pressão… como se a água pressionasse mais do que deveria.

Ela engoliu seco.

A risada dos outros ficou distante.

O lago parecia puxar o som para baixo.

Por um momento, Rachel teve a certeza de que algo tinha tocado nela.

Um toque gelado…

Não como uma pedra.

Não como um galho… mas coomo dedos.

Rachel prendeu a respiração.

A superfície ao redor de sua perna ficou escura.

Depois vermelha.

A água de Lake Lanier tingiu-se de vermelho sangue.

Os outros estavam rindo.

Jogando água, brincando de afogamento… vivendo o lago como algo simples.

Rachel olhou para baixo.

O vermelho se espalhava devagar demais para ser um acidente.

E, sob a água, alguma coisa pareceu se mover contra a corrente.

Então ela gritou.

— Saiam da água!

lake lanier

Continua

O que Rachel sentiu dentro do Lake Lanier não parecia acidente, correnteza ou imaginação.

Na próxima parte de Afogados, o grupo vai descobrir que Lake Lanier guarda mais do que histórias antigas — e que algumas coisas submersas não querem permanecer esquecidas.

Leia agora mesma a parte 2

Referências:

Embora Afogados faça parte do universo ficcional do Último Refúgio RPG, parte da atmosfera do conto nasce de um lugar real: Lake Lanier, na Geórgia.

Para entender melhor o contexto histórico de Forsyth County e os episódios de violência racial que marcaram a região a partir de 1912, consulte o projeto Forsyth 1912, do Atlanta History Center.

Leia também o artigo que preparei: Oscarville, a história real por trás das lendas do Lago Lanier

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