Lucía e Clara Vargas: A Quebra – Parte 1

Resumo: Clara e Lucía Vargas viviam uma rotina simples em Madrid, feita de café, escola, trabalho, silêncio e lembranças. Mas algumas coisas só revelam seu valor quando estão prestes a desaparecer.

Tempo aproximado de leitura: 4 minutos.

Antes da Quebra

Antes da quebra, o mundo era simples demais para ser lembrado.

Lucía Vargas acordava antes do sol, não por necessidade, mas por hábito. A casa ainda estava fria naquele horário, silenciosa de um jeito confortável, onde o tempo parecia esticar um pouco mais.

Na cozinha, o café começava antes da luz.

O cheiro se espalhava lentamente, preenchendo o espaço vazio entre os cômodos, como se anunciasse que o dia estava começando de verdade.

Do lado de fora, Madrid ainda estava acordando.

Algum ônibus passando mais cedo do que o esperado.

O som distante de uma padaria abrindo.

Uma persiana metálica subindo com esforço.

Sempre da mesma forma.

Sempre no mesmo ritmo.

Nada ali era especial… até deixar de existir.

Clara: antes da quebra

Antes da quebra, Clara acordava depois.

Nunca no primeiro chamado. Nem no segundo…

Lucía chamava pelo nome com um tom que misturava cansaço e carinho — um equilíbrio que só as mães conseguem manter.

— Clara…

E mesmo sem abrir os olhos, Clara já sabia que precisava levantar.

Havia escola.

Havia rotina e um mundo esperando por elas.

Um mundo que começava sempre do mesmo jeito: gente descendo as escadas do prédio, vozes ecoando pelo corredor, um “buenos días” dito rápido, só por educação.

Mas antes, o café da manhã era importante — ainda que não fosse farta.

Mas era suficiente…

Tinha pão, queijo e às vezes algo doce.

Às vezes churros comprados na noite anterior.

Às vezes simplesmente pão duro aquecido rápido.

Tinha também a conversa sobre nada importante.

Às vezes, sobre os afazeres daquele dia.

Às vezes, sobre a escola.

Outras vezes, sobre alguém que disse alguma coisa que não importava muito — mas, naquele momento, parecia importante o bastante.

Muito raramente, a televisão ficava ligada — sem volume alto.

Notícias passando, pessoas falando…

Nada que realmente importasse para elas. Nada que indicasse o que viria.

Rostos anônimos

Antes da quebra, Clara saía para a escola sempre com a mochila mais pesada do que precisava.

Cheia de cadernos e desenhos — gostava de desenhar.

Não para mostrar, mas porque aquilo organizava o mundo dela de um jeito silencioso.

Ela observava, percebia pequenos detalhes, mais do que falava.

E no metrô, era onde mais desenhava rostos anônimos, alguns olhando para baixo, perdida em pensamentos. Enquanto outros com olhar fixo no celular.

Prestava atenção em pequenas mudanças — quem estava triste, quem fingia bem e quem era verdadeiro.

Aos 16 anos, ela tinha um namoradinho: Daniel Torres.

Um rapaz que chamava mais atenção pelo carisma do que pela inteligência. Sempre sorrindo, sempre confortável… mesmo quando não entendia metade das conversas.

Ele gostava de esperar Clara na saída da estação.

Sempre no mesmo lugar.

Encostado, como se não tivesse pressa de nada.

Já sua melhor amiga, Inês Romero — Inseparáveis.

Não havia decisão que uma tomasse sem que a outra já tivesse pensado antes. Dividiam segredos, planos, medos… e até o silêncio.

Sentavam juntas na mesma mesa todos os dias.

Falavam alto demais às vezes.

Riam sem motivo claro como se o tempo não tivesse urgência.

Para as duas, a entrada na Universidade Complutense de Madrid já parecia algo certo, quase inevitável.

Não por arrogância, mas por constância — estudavam, se dedicavam, seguiam o caminho que sempre imaginaram.

O que não era tão real para Daniel.

Ele não planejava tanto. Vivia mais o presente.

E, de certa forma… isso também fazia parte do encanto.

Lucía: antes da quebra

antes da quebra

Antes da quebra, Lucía trabalhava no supermercado do bairro havia anos.

Todos a conheciam.

Sabia quem pagava com moedas contadas.

Quem comprava sempre o mesmo vinho barato.

Quem demorava mais escolhendo do que precisava, só para evitar voltar para casa.

Era um trabalho simples. Repetitivo.

Mas era seguro.

E, por muito tempo… isso foi suficiente.

A rotina delas funcionava, entre conversas rápidas no café, metrô cheio, dias que começavam e terminavam sem grandes variações.

O som constante da cidade nunca incomodava.

Era presença… Era fundo… Era vida acontecendo…

Simples, previsível e justamente por isso, invisivelmente preciosa.

À noite, a casa voltava a ser o centro das atenções.

Jantar simples, televisão em volume baixo.

Às vezes uma conversa mais longa.

Às vezes silêncio seguro.

Mas também havia um lugar na casa que nunca foi reorganizado.

a quebra

O lugar que ficou

Não por esquecimento. Por escolha…

As coisas dele ainda estavam lá.

Não todas. Apenas o suficiente.

Um casaco que ninguém mais usava.

Uma chave que não abria mais nada.

E uma fotografia que nunca saiu da estante.

Clara não falava muito sobre ele.

Nunca falou como as outras crianças falavam dos pais na escola.

Não havia histórias novas.

Só lembranças antigas.

Lucía também não mencionava.

Não porque não quisesse. Mas porque já sabia o que vinha depois de qualquer tentativa de explicar.

A despedida aconteceu anos antes.

Foi rápido. Sem espaço para entender…

Desde então, eram duas.

No começo, Clara ainda perguntava:

— Para onde ele foi?

— Por que não volta?

Depois… parou.

Não porque entendeu.

Mas porque percebeu que algumas respostas não resolviam nada.

O silêncio ficou no lugar dele.

E, com o tempo… tornou-se parte da rotina.

Lucía nunca disse em voz alta.

Mas tudo que fazia desde então era para compensar esta ausência, mesmo sem entender o porquê.

Enquanto isso, seu bairro mantinha a mesma vida noturna de sempre: Gente andando, conversas nas janelas e alguns carros passando sem pressa.

Ainda na cozinha, Clara às vezes levava os desenhos até a mesa, sempre querendo concluir algum detalhe.

Já tinha um repertório vasto de desenhos.

Desenhou sua melhor amiga, seu primeiro amor, sua mãe e… sim, tinha muitos desenhos do seu pai.

Sempre dirigindo, sempre de carro, sempre seguindo em uma grande estrada.

Também desenhou o prédio onde moravam. As janelas iluminadas e as pessoas sem nome dentro delas.

Lucía sempre via.

Mesmo quando fingia não ver.

E dizia:

— Tá bonito.

Sem exagero.

Sem análise crítica.

Tentando não despertar lembranças.

Mas com verdade suficiente para Clara continuar fazendo.

Aquelas coisas pequenas, repetidas, sem marca eram tudo que elas tinham agora.

Eram tudo que elas precisavam.

Algo imperceptível… até acabar.

Continue acompanhando Histórias de Sobreviventes para descobrir como a vida de Lucía e Clara Vargas foi quebrada pela céu vermelho:

O Que Ainda Resta Quando Tudo Acaba.

Entre no grupo do Último Refúgio RPG

Gostou deste conteúdo e quer acompanhar novas histórias, personagens, criaturas, bastidores e atualizações do universo Último Refúgio RPG?

Entre no nosso grupo do WhatsApp e faça parte desse refúgio antes que a próxima porta se abra.

👉 Entrar no grupo do WhatsApp: https://whatsapp.com/channel/0029VbD4UXZ9MF94IBsU3j0A

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima