Resumo: Clara e Lucía Vargas enfrentam o colapso de Madrid, a fome, os necrófagos e a estrada que as levaria até o encontro com Mateo.
Tempo aproximado de leitura: 7 minutos.
O Que Ainda Resta Quando Tudo Acaba
A quebra começaria em dezembro de 2029.
Não em silêncio completo.
Madrid… não permitia silêncio.
Primeiro foram as notícias.
Barulho de televisão ligado em todos os apartamentos.
Vizinhos discutindo pelos corredores.
Mensagens chegando sem parar.
Tudo parou de fazer sentido quando o céu da Espanha ficou vermelho.
Depois vieram as ruas.
Cheias demais.
Gente falando alto.
Carros buzinando.
O caos urbano não veio do vazio, mas sim do excesso de opiniões.
No primeiro dia, Lucía ainda foi ao mercado.
Ainda pegou o metrô no mesmo horário.
Ainda via as mesmas pessoas nas mesmas estações.
Mas a internet indicava outros lugares do mundo na mesma situação…
Foi no metrô que Clara percebeu primeiro.
Algo não estava certo.
Algumas pessoas evitavam olhar umas para as outras, pois estavam com medo.
Não havia mais aquele desconforto normal de proximidade.
Havia algo novo…
Algo prestes a quebrar.
O céu vermelho sobre Madrid

No centro de Madrid, as cafeterias abriram normalmente.
Padarias venderam pão.
Gente foi trabalhar.
Todos aguardavam um pronunciamento oficial das autoridades.
Quando veio, tratou-se de confirmar que não passava de um fenômeno climático mundial.
A internet, como sempre, trouxe primeiro as novas notícias ao vivo.
Hospitais…
Ambulâncias…
Corpos se movendo onde não deveriam.
O inacreditável passou a ser real.
Até o fim da primeira semana, veio o esgotamento.
O metrô parou primeiro.
Não oficialmente.
As linhas interrompidas com estações bloqueadas e acidentes repetidos.
Depois da quebra… nunca mais voltou.
O mercado
O mercado onde Lucía trabalhava mudou antes de fechar.
Primeiro faltaram produtos.
Depois… faltou controle.
As filas cresceram.
As pessoas começaram a empurrar umas às outras, discutir e olhar de forma diferente.
E então um idoso morreu ali dentro.
Ninguém entendeu o momento exato, mas os culpados se revelaram.
Eram jovens que não queriam esperar.
Que já não respeitavam as regras antes das mudanças.
Agora, também não iam demonstrar remorso.
Na cabeça deles, já era uma condição de sobrevivência. Sendo assim, também não precisavam mais pagar pelos itens escolhidos.
Lucía tentava apaziguar a situação.
Ao mesmo tempo condenava os rapazes pelo ocorrido.
Em meio ao caos instaurado no mercado, o senhor desconhecido se moveu.
Foi rápido.
Confuso.
Violento.
Lucía puxou Clara antes de entender.
Antes de terminar vendo o que estava por vir.
Neste momento, a outra atendente, juntamente com um cliente, tentava ajudar o senhor.
Tudo que elas aceitavam como impossível mudou.
O idoso estava vivo novamente, não mais como um ser humano normal.
Definitivamente era outra coisa.
Seu corpo tinha se alongado, sua pele parecia que ia rasgar, seus olhos perderam a coloração.
Os dois mais próximos foram os primeiros a ter pescoço e rosto atingidos pelas garras da criatura.
Logo o pavor tomou conta dos demais.
O grupo se dispersou rapidamente.
Lucía e Clara correram para os fundos, onde o carro estava estacionado.
Antes de chegarem na saída, Clara ainda viu a criatura levantando um dos jovens com suas garras atravessadas em sua mandíbula.
Do lado de fora, pessoas corriam para seus carros.
Já dentro do carro, elas perceberam um carro de polícia parando na frente do mercado.
Com o carro em movimento, foram ouvidos disparos de arma de fogo.
A rua estava naturalmente vazia naquela noite.
Poucas pessoas transitavam.
Poucos carros circulavam.
Facilitando a chegada rápida no seu prédio.
Ainda que seu apartamento sempre fora o ambiente mais seguro.
Não demoraria para deixar de ser…
O bairro ainda resistia
No início da segunda semana, ainda havia “bairro”.
Ainda havia vizinhos.
Gente organizando água.
Vendendo comida.
Principalmente rezando nas igrejas.
Velas começaram a aparecer nas janelas.
Santos voltaram às paredes.
O céu vermelho não ajudava.
A esta altura, todos entenderam que algo estava errado… além da explicação.
Clara já não dormia como antes.
Disparos, gritos curtos, explosões se tornaram comuns nos dias e noites seguintes.
Na terceira semana, já não havia mais energia elétrica.
Água e comida já estavam sendo racionadas.
Passou a ser necessária a formação de um grupo de voluntários para buscar recursos no mercado próximo.
Lucía conhecia bem o mercado, mas não deixaria sua filha sozinha.
Também não a levaria.
Três moradores decidiram partir para o mercado.
Apenas um portava um revólver.
Os outros dois empunhavam armas improvisadas.
Durante o caminho, era possível notar a presença de outros prédios sendo usados como abrigos seguros.
As pessoas se olhavam e se ajudavam indicando a presença de ameaças.
Existia esperança entre as pessoas mais comuns.
No mercado, o grupo teve o primeiro embate real contra mortos-vivos.
No primeiro momento, foi difícil lutar contra rostos conhecidos…
Até semanas atrás, eram homens e mulheres em suas rotinas de fazer compras.
Agora eram necrófagos guiados pelo desejo de acabar com a vida ao seu redor.
Eles ainda continuavam segurando seus carrinhos de compra, mas sem empurrá-los.
Escolhendo um produto, mas sem tocá-los.
Tentando pagar, mas sem dinheiro…
Necrófagos Errantes e Contempladores se multiplicaram em larga escala em toda Madrid, fazendo com que os meses seguintes se tornassem decisivos para a sobrevivência dos seus moradores.
Foi isso que decidiu tudo…
Meses depois da quebra de suas vidas, elas decidem sair antes que fosse tarde demais.
A saída de Madrid

Do lado de fora… Madrid já não era cidade.
Era concentração de morte.
E concentração… significava sempre o pior.
A saída não foi limpa.
Carros parados.
Mortos-vivos concentrados em verdadeiras hordas.
Lucía dirigia com as mãos firmes, evitando ruas estreitas e aglomerados de necrófagos.
Mas o olhar… já não era o mesmo.
Clara não perguntava mais.
Estava com medo, pois seu mundinho já tinha quebrado completamente.
Agora só restavam cemitérios a céu aberto.
Lembrava daquilo que foi invisível pelos últimos anos da sua vida.
A cidade ficou para trás.
E quando desapareceu no retrovisor… qualquer esperança desabou junto.
O interior também não traria paz, como elas iriam vivenciar ao longo desta jornada.
Contudo, trouxe mais espaço.
Ainda que o espaço não significasse segurança total.
Significava somente distância do que ainda funcionava.
Nas primeiras semanas fora da cidade, ainda encontraram pessoas.
Grupos pequenos.
Famílias.
Gente tentando organizar alguma coisa.
Alguns até sem saber o que estava acontecendo no restante do país.
Mas com o passar do tempo, vieram mais e mais mortes.
Nunca parando muito tempo no mesmo lugar.
Foi assim por semanas.
Depois foram meses.
Casas abandonadas viraram refúgios temporários.
Água…
Comida…
Silêncio… a lembrança da quebra.
Elas já não contavam dias.
Não sabiam para onde estavam indo.
Desviavam de estradas bloqueadas.
Passaram por carros abandonados.
Clara olhava pela janela como se esperasse ver o mundo antigo escondido entre as colinas.
Mas só havia poeira.
Muros baixos de pedra.
Placas tortas.
Marcas de pneus.
E aquele céu vermelho, sempre acima delas, como uma ferida que nunca fechava.
Lucía tentou sorrir.
Não conseguiu.
Clara percebeu.
— A gente vai encontrar um lugar?
Lucía demorou a responder.
Porque mentir para a filha era ruim. Mas dizer a verdade doía mais…
— Vamos.
Foi tudo que conseguiu dizer.
A estrada em Aragón

Na manhã seguinte, o carro já falhava.
Pouco combustível…
A estrada parecia se repetir no fim.
Mas no fim, havia destroços esmagados de dois carros e um ônibus.
Próximo aos destroços, corpos escuros, curvados, andando devagar demais para parecerem urgentes… mas constantes demais para parecerem inofensivos.
Lucía planejou desviar, mas um homem chamou sua atenção.
Uma distração de poucos segundos foi o suficiente para o carro derrapar e ficar preso na irregularidade do terreno seco.
O motor continuou vibrando enquanto os Queimados se aproximavam.
Lentos…
Inevitáveis…
O calor chegou antes deles.
Clara começou a chorar baixo.
Lucía segurou o volante com as duas mãos, como se pudesse arrancar o carro dali pela força.
— Vai…
O motor respondeu com um engasgo.
— Vai, vai, droga…
Do lado de fora, os mortos queimados continuavam vindo.
E foi nesse momento que Lucía viu um homem se aproximando.
Sozinho.
Armado.
Caminhando na direção delas.
Não parecia um necrófago.
E isso também não significava que fosse seguro.
Lucía olhou para Clara…
Depois para o homem…
Depois para os Queimados…
Ela só queria liberar o carro e seguir pela estrada.
A história de Lucía e Clara continua no encontro que cruza diretamente com A Estrada Não Esquece – Parte 1, quando Mateo surge entre elas e os Queimados.
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Marcelo Biazone é profissional de marketing digital, criador de conteúdo e idealizador do universo Último Refúgio RPG. Admirador de filmes de terror desde jovem, desenvolve um projeto autoral que une horror cósmico, sobrevivência, apocalipse, Necronomicon, Renascidos e narrativas sombrias sobre a fragilidade humana diante do impossível.