Resumo: Em uma estrada abandonada de Aragón, Mateo encontra os restos queimados de uma tragédia antiga — e algo naquele cenário desperta memórias que ele tentou enterrar.
Tempo aproximado de leitura: 4 minutos.
A Estrada
Aragón, Espanha, 14 de dezembro de 2030.

O calor ainda resistia no ar, mas já não pertencia ao dia.
A luz alaranjada era uma realidade desde o começo do fim.
O vento estava seco e frio naquele começo de tarde.
Não era forte, mas constante — deslizando pela planície aberta, empurrando poeira, folhas mortas e restos leves de algo que já não fazia parte do mundo como antes.
A camisa de campo já havia perdido o tom original, desbotada pelos dias repetidos. As mangas dobradas expunham braços marcados, mais pelo uso do que pela força.
Ele não se destacava na paisagem, pois era feito das mesmas cores — terra, poeira e sol.
As botas, gastas, tocavam o solo com precisão — nunca peso demais, nunca descuido.
Mateo seguia pela estrada a pé.
Sem companhia.
Sem pressa, pois não tinha mais um destino.
Até algo chamar sua atenção. Mesmo distante, mesmo sem procurar, ele sempre percebia antes…
Parou no meio da estrada, como fazia sempre que algo quebrava o padrão.
A sola da bota raspou levemente o asfalto rachado, e ele manteve o peso distribuído, pronto para recuar ou avançar sem esforço.
Inspirou pelo nariz. O gosto veio depois. Amargo. Antigo…
Era fumaça. Mas não de um incêndio recente.
Não era vida sendo consumida. Era o que sobrava… depois de tudo.
Ele não avançou imediatamente.
Seus olhos percorreram a estrada longa e reta, característica da região — quilômetros de horizonte aberto, ladeados por campos secos e muros baixos de pedra que pareciam mais resistentes ao tempo do que qualquer coisa que ainda respirasse.
Ao longe, uma placa metálica rangia com o vento, repetindo um som irregular.
Não era alto. Mas era constante o suficiente para marcar o ambiente.
Mateo olhou apenas uma vez.
Zaragoza.
A tinta estava descascada, o poste levemente inclinado.
Ele não voltou.
O ônibus queimado

A mochila nas costas pesava pouco. O suficiente para ser necessária, nunca o bastante para ser confortável. A espingarda descansava baixa, apoiada no antebraço — não como algo pronto para uso, mas como extensão natural do corpo. Já as munições, sempre poucas, estavam organizadas no bolso lateral.
Ele deu mais um passo.
E então viu.
A estrutura apareceu primeiro no horizonte baixo, irregular, destoando do vazio da estrada.
Conforme se aproximava, a forma se definia: um ônibus de viagem, ou o que restava dele.
Mateo parou de novo. O corpo reagiu antes da mente.
A mão direita se abriu lentamente no ar, como se buscasse sentir algo invisível.
O vento passou pelos dedos e trouxe o cheiro mais forte dessa vez.
Carne queimada. Já tinha passado tempo, não era atual.
Ele avançou, agora com mais cautela.
A poucos metros, o cenário se revelou por completo.
O ônibus estava esmagado contra dois carros menores, formando uma massa única de metal retorcido. O teto havia cedido em partes, e onde antes existiam janelas restavam apenas aberturas irregulares, bordas negras e quebradiças.
Nada ali parecia intacto. Nada parecia recente.
O chão ao redor carregava marcas de calor — manchas escuras espalhadas, como cicatrizes no asfalto. Fragmentos finos de cinza se acumulavam nas laterais da estrada, presos contra os muros baixos, levados pelo vento inúmeras vezes.
Certamente, aquilo estava ali há meses.
Mateo não olhou para dentro do ônibus — a visão era clara.
Não havia nada lá dentro com que se preocupar — a ameaça estava do lado de fora.
Seu foco se manteve no entorno.
Conforme o cheiro ficava mais denso, vinha um som que não queria ouvir.
Ainda baixo.
Irregular.
Agoniante.
Não parecia humano, nem animal.
Formas humanas se moviam.
Humanas — apenas na silhueta.
Os Queimados
Os corpos estavam levemente curvados, como se tivessem colapsado sobre si mesmos. Eles não tinham mais pele, apenas rachaduras irregulares em tons cinza escuro. E dentro dessas fissuras, um brilho. Fraco. Instável. Como carvão que nunca terminou de apagar.
Eram corpos carbonizados, grotescos, com restos de pele ainda visíveis. O horror piorava quando eles agonizavam em um lamento contínuo, baixo demais para chamar atenção…
Alto demais para ser ignorado pelos sentidos sobrenaturais de Mateo.
A criatura virou a cabeça na sua direção.
Sem pressa.
Sem ímpeto.
E começou a andar…
Não corria.
Não precisava — ou não conseguia.
Mateo se preparou. Não para disparar.
Não havia necessidade de gastar munição, pois a ameaça ainda estava relativamente longe.
Mateo sabia que poderia facilmente contorná-los. Mas algo… estava errado dentro dele…
Foi então que o ar mudou ao seu redor. Sutil. Um aumento leve na temperatura, quase imperceptível.
O calor tocou primeiro as mãos. As palmas marcadas no passado. Não havia mais dor, mas o corpo ainda lembrava.
Por um instante — breve e suficiente — a estrada desapareceu.
Metal retorcido. Gritos. Fogo. Uma explosão. Incapacidade de socorrer sua família.
Tudo escurecendo…
Mateo voltou ao presente no mesmo segundo.
A respiração saiu controlada, curta.
Os olhos se fixaram novamente na estrada.
Os Queimados continuavam avançando. Lentos. Persistentes. Como se não houvesse urgência.
O motor na estrada
Mas o ar mudou novamente.
Algo vinha na mesma direção dele. Um som inconfundível. Um motor.
Mateo se moveu instantaneamente.
Sempre primeiro.
Seu sentido espacial era mais aguçado que o de um morcego — quase como um sonar.
Virou-se em um deslocamento único, fluido, para ver um veículo que vinha da curva distante, onde a estrada desaparecia por alguns metros antes de retomar o traçado reto.
Agora a arma estava pronta. Não apontada. Apenas preparada.
Não sentiu ameaça real. Mesmo assim, ajustou o ângulo do corpo, posicionando-se de forma que tivesse vantagem.
Enquanto isso, os Queimados continuavam seus movimentos lentos… seus lamentos constantes…
Ele sinalizou uma meia parada para o veículo. Sem pressão. Sem autoridade.
Mas a motorista estava sob pressão.
Ela não tinha o controle da situação. Não podia arriscar mais uma perda.
Uma manobra evasiva veio na sequência… Mateo desviou com tranquilidade.
Já o carro derrapou. Perdeu aderência por um instante, saindo parcialmente da estrada.
O veículo estava vulnerável e, para piorar, próximo de dois Queimados.
Mateo identificou duas mulheres no carro — provavelmente mãe e filha.
Além disso, sua mente já havia calculado as distâncias de todas as criaturas em relação ao carro… e a ele próprio.
Com todas as peças estabelecidas no tabuleiro, Mateo teré que tomar uma decisão rápida.
Salvar ou Sobreviver…

👉 Continue no Episódio 02: Entre Salvar e Sobreviver
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Conheça o perfil completo de Mateo Álvarez, onde o passado, a culpa e a sobrevivência continuam guiando seus passos pelas estradas de Aragón.
Em meu conto, Aragón aparece marcada pelo céu carmesim, pelo silêncio das estradas abandonadas e pela sobrevivência em meio ao colapso. Mas, no mundo real, a região também carrega uma identidade forte, com paisagens naturais, vilas históricas, castelos, rotas culturais e cenários que ajudam a imaginar a solidão e a beleza dura presentes neste conto.
Para conhecer melhor a localidade que inspirou a jornada de Mateo, visite o site oficial de turismo de Aragón.

Marcelo Biazone é profissional de marketing digital, criador de conteúdo e idealizador do universo Último Refúgio RPG. Admirador de filmes de terror desde jovem, desenvolve um projeto autoral que une horror cósmico, sobrevivência, apocalipse, Necronomicon, Renascidos e narrativas sombrias sobre a fragilidade humana diante do impossível.