Mateo Álvarez: O Começo do Fim

Resumo: Antes de se tornar o sobrevivente silencioso das estradas de Aragón, Mateo Álvarez era apenas um homem comum. Então o céu ficou vermelho, os mortos voltaram, e o fim do mundo encontrou sua casa.

Tempo aproximado de leitura: 6 minutos.

Aragón, Espanha — Antes do fim

Mateo Álvarez: O Começo do Fim

Mateo Álvarez nunca foi um homem extraordinário.

Morava no interior de Aragón, onde a vida seguia em um ritmo previsível — lento o suficiente para conhecer as pessoas, rápido o bastante para não perceber o tempo passando.

Trabalhava com madeira, mas não era dono de uma grande oficina, nem conhecido fora da região.

Fazia peças simples. Reparos. Pequenos móveis. Nada grandioso.

Nada que ficasse para sempre.

Entalhava, reparava, moldava imperfeições até que deixassem de existir para quem olhasse.

Era um trabalho de paciência.

De precisão. Silencioso.

Às vezes, fazia esculturas discretas, mais para si do que para venda.

Era bom no que fazia, pois era detalhista e muito paciente.

Do tipo que refazia algo inteiro por causa de um erro que só ele percebia.

Ele também tinha um rifle em casa. Bem cuidado. Pouco usado além do necessário.

Nos fins de semana, saía para caçar com ele.

Não por necessidade.

Não por esporte, mas por hábito.

Cresceu assim…

Sabia ler o vento. Sabia esperar. Sabia o momento certo de pressionar o gatilho — e, mais importante, quando não fazê-lo.

Mateo não era um homem fácil de notar.

Não porque fosse invisível — mas porque já parecia fazer parte do mundo. As cores da terra estavam nele: poeira, pedra, madeira seca.

Sua presença não quebrava o ambiente. Apenas se ajustava a ele.

Sua casa era simples e sua rotina não exigia muito, mas entregava o suficiente.

E, mais importante que tudo, ele tinha uma esposa dedicada.

Nada nele indicava que sobreviveria ao fim do mundo.

Nada nele parecia preparado… para continuar depois.

Mateo era, definitivamente, um homem comum.

Com uma vida comum.

Antes do mundo quebrar…

O céu ficou vermelho

Então, sem esperar… em dezembro de 2029, o mundo quebrou.

O céu, até então simplesmente azul… deixou de ser céu.

Primeiro veio um vermelho profundo.

Não como pôr do sol.

Não como luz refletida.

Era mais denso. Mais pesado, como se o próprio ar estivesse sangrando.

As nuvens seguiram.

Deformaram-se.

E assumiram o mesmo tom — escuro, avermelhado… como fumaça de uma grande queimada.

As pessoas olharam sem entender… Tentaram explicar…

Tempestade?

Fenômeno climático?

Falha na atmosfera?

Qualquer coisa que ainda pudesse caber dentro da lógica. Mas não cabia…

Na Espanha — onde morte e fé sempre caminham próximas — a explicação veio antes da ciência.

Nos primeiros dias, veio nas igrejas.

Nas casas do interior.

Nas palavras repetidas entre vizinhos.

E então, o pior aconteceu…

Todos os que morriam a partir daquele momento… voltavam.

Não aqueles que já tinham sido sepultados antes do evento, mas todos aqueles que faleceram depois.

No começo, parecia gente que “acordava” após morte confirmada.

Em casos muito específicos, até que era isso mesmo.

Mas esses acontecimentos estavam longe da ameaça real daquele momento da existência humana.

Os hospitais não entendiam. As famílias não aceitavam.

Não era doença. Não era vírus. Não era mordida. Não era contágio… Era simplesmente inevitável.

Morreu… voltou, mas não como antes.

Algo permanecia. O corpo. O movimento. A presença. Mas não havia vida.

Assim que a vingança dos mortos começou, o mundo percebeu rápido demais que aqueles que voltavam… não aceitavam os vivos.

O mundo entrou em colapso antes de entender completamente o que estava acontecendo.

Possivelmente o julgamento divino. A condenação infernal.

As cidades caíram rápido.

Estradas travaram por toda Espanha.

Gente fugindo sem direção.

Carros parados. Corpos nas ruas.

Na semana seguinte ao dia em que o céu ficou vermelho, ainda havia tentativas de organização.

Ainda havia esperança… Mas isso acabou rápido quando ficou claro que não havia cura. Que não havia controle. Que não havia resistência.

A única coisa que restou… foi fugir.

E foi assim que Mateo foi parar na estrada naquele fatídico dia que mudaria sua vida para sempre…

Elena Álvarez

Mateo e sua esposa não estavam naquela estrada por escolha, mas porque não havia mais lugar para ficar.

O carro, naquele momento, carregava mais do que pessoas.

Carregava tempo. Memórias. Uma vida inteira reduzida a um espaço que cabia ali dentro.

O mundo já havia acabado.

Não havia sinais de que aquele caos iria se desfazer no dia seguinte.

Mas foi na noite seguinte que o pior aconteceu.

Ele lembra de pouca coisa daquela noite, além de metal retorcido após o impacto.

E então, veio o fogo.

A explosão veio depois.

E naquele instante… o fim do mundo deixou de ser coletivo.

E passou a ser… dele. Somente dele.

Os primeiros dias do apocalipse haviam transformado as estradas do país em puro caos.

Gente fugindo sem direção.

Veículos abandonados.

Colisões evitáveis… até deixarem de ser.

No carro, estavam Mateo e sua esposa.

O amor de sua vida, Elena Álvarez.

O carro de Mateo parou no momento errado. E o mundo, que já estava desmoronando, decidiu não esperar por ninguém.

Sua esposa ficou presa.

Mateo não pensou. Apenas tentou arrancar o metal. Forçar espaço, ignorando suas limitações e arriscando sua própria vida.

Mas o metal não cedeu.

E então veio o fogo. Rápido. Inevitável…

Ele foi puxado para fora por outros.

Gritou.

Reagiu.

Tentou voltar.

Não conseguiu.

O calor venceu antes da vontade.

E então tudo explodiu.

Renascido: O homem que voltou

Mateo não morreu.

E isso foi o que ficou.

Ele viveu o suficiente para ver.

O suficiente para entender.

O suficiente para nunca esquecer.

Quando voltou, já não havia nada para recuperar.

Nada para salvar.

Apenas memórias e marcas terríveis.

As mãos, os braços e parte do tronco estavam bem queimados.

A morte foi constatada por quem o tirou do carro, mas logo ele voltaria.

Não como um necrófago, mas como um Renascido.

Ele acordou em uma ambulância.

Seus ferimentos haviam cicatrizado, mas ainda havia dor.

Não era dor física.

Era dor na alma que nunca desapareceria.

Um ano se passou desde então…

Tempo suficiente para aprender…

Não como antes, mas como alguém com habilidades sobrenaturais.

Logo, Mateo descobriria que tanto ele quanto outros que voltaram em circunstâncias semelhantes ficariam conhecidos como Renascidos.

Para os Renascidos, o mundo não tinha acabado de uma vez…

Ele continuava acabando…

Devagar…

Em cada corpo que voltava como um necrófago.

Mateo não tentou entender completamente o que tinha acontecido.

Apenas aprendeu a sobreviver utilizando suas novas capacidades extraordinárias.

E talvez tenha sido esse o primeiro erro.

Porque sobreviver não era o mesmo que continuar vivo.

Mateo Álvarez: O Começo do Fim

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Conheça o perfil completo de Mateo Álvarez e acompanhe sua trajetória nos contos de A Estrada Não Esquece – Parte 01, onde o passado, a culpa e a sobrevivência continuam guiando seus passos pelas estradas de Aragón.

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