Afogados: Lake Lanier – Parte 2

Resumo: Depois do estranho episódio no lago, Rachel tenta ignorar o medo que ficou preso à água. Mas, enquanto o grupo tenta transformar a noite em diversão, Mark encontra uma cabana isolada que parece guardar algo muito mais antigo do que todos imaginam.

Tempo aproximado de leitura: 7 minutos.

Ainda não leu o começo da história? Antes de dar mais um passo na história, volte para Afogados: Lake Lanier – Parte 1 e descubra como a viagem de Rachel e seus amigos começou a afundar em algo estranho demais para ser ignorado.

Os amigos

mark e amigos

Lake Lanier, Geórgia Estados Unidos, 10 de junho de 1988.

Eles ficaram sem entender…

Logo depois, tudo voltou ao normal para ela.

Kevin chamou atenção com a própria tosse, entre uma tragada e outra. Mas não perdeu a oportunidade de convidar Rachel para se acalmar junto a ele.

Rachel seguiu para a cabana e Kevin foi embora pouco depois.

Anoiteceu rápido.

E, junto com a noite, veio algo diferente.

Algo que não queria estar ali, mas estava.

Algo que não foi percebido, mas incomodava apenas por existir.

Lisa foi a primeira a querer sair.

Amanda foi a segunda a demonstrar o mesmo interesse.

Travis e Mark concordaram, e todos seguiram para o interior da cabana.

Mais tarde, todos já estavam na sala, aquecendo-se na frente da lareira.

Tudo parecia normal — dentro estava quente, tinha fumaça, cerveja e muitas risadas. Do lado de fora, havia frio, escuridão e sons rotineiros.

Sentada no chão, abraçando os joelhos, Rachel observava o fogo como quem tenta encontrar lógica em algo que não deveria mudar — mas mudava.

Kevin estava ao lado dela, tragando com mais cuidado agora.

Menos tosse.

Mais tentativa de parecer confortável.

— Você ficou estranha lá fora… — ele disse, sem encarar diretamente.

Rachel demorou a responder.

— A água…

Ela fez uma pausa contemplativa.

— Não parecia… água.

Kevin soltou um riso curto, não porque achou graça, mas porque precisava que fosse só isso.

— Deve ter sido choque térmico… ou… sei lá…

Rachel não respondeu.

Antes que Kevin pudesse insistir, um barulho interrompeu.

Um estalo.

Não da lareira.

Vinha da parede.

Todos olharam.

Silêncio… somente o barulho da lenha queimando.

Travis falou primeiro:

— Relaxa… essa cabana é velha.

Mark não respondeu imediatamente, pois achava que o barulho tinha vindo de fora.

— Deve ser o irmão que voltou… desta vez, vou perguntar se ele quer entrar.

Lisa e Rachel não gostaram muito da ideia.

Elas não simpatizavam com a cultura racista local, mas também não aprovaram um desconhecido ali com eles.

Mark já estava em outro mundo naquela altura. Logo, abrir a porta não o incomodou.

Quando perceberam, ele já estava do lado de fora, gritando enquanto uma silhueta desaparecia na escuridão da noite.

— Ei, irmão… tá tudo certo. Não precisa sumir.

Pouco tempo depois, Travis saiu segurando uma garrafa de cerveja.

— Esse cara tá querendo o quê, hein?

— Chama ele aí. Se quiser acender um e beber uma cerveja, problema nenhum.

Mark assentiu e confirmou que, amanhã, iria procurar por ele.

Como não havia mais vestígio de ninguém, ambos entraram.

Amanda estava à espera de Travis, também já estava alta.

Mark não gostava muito daquela visão. Certamente era seu senso de proteção familiar, mas ele respeitava as escolhas da irmã.

Sozinha com o fogo

Um por um, eles cederam ao cansaço.

Não o cansaço comum.

Mas aquele que parece empurrar o corpo para baixo.

Travis levou Amanda para o quarto… ela agarrada a ele como se o toque fosse a única coisa sólida.

Lisa riu de algo baixo com Mark, uma tentativa de manter o mundo simples.

Não demorou para eles desaparecerem juntos.

Kevin, por sua vez, não chegou a decidir.

Apagou no chão da sala mesmo, a cabeça tombada de lado, respiração irregular.

Sobrou apenas Rachel.

Sozinha com o fogo.

Kevin estava lá, mas não era a companhia que ela queria.

Talvez ela não quisesse nenhuma companhia.

Nunca queria.

Algum tempo depois, ela olhou pela janela.

Estava muito escuro lá fora.

Nada estranho.

Nenhuma silhueta.

Nada.

Mas, como a sombra no lago não saía de sua cabeça, ela decidiu algo que até então parecia fora de cogitação.

Talvez uma decisão que deveria ter sido tomada antes.

Rachel deitou ao lado de Kevin.

Naquele momento, não parecia mais uma opção ruim.

O símbolo no corrimão

A manhã veio sem dificuldade.

Sem lembrança de transição.

O sol pousava suavemente sobre a água, como se nada tivesse acontecido.

Como se o lago fosse apenas… um lago.

Nem frio.

Nem quente.

Perfeito.

Apenas ideal para aproveitarem o lago.

O grupo se reposicionou naturalmente. Pares se reagrupando, vozes mais leves, risadas tentando reconstruir o que não sabiam que havia sido quebrado naquele local.

Rachel foi a última a sair.

E a única a perceber um símbolo estranho talhado no corrimão da velha escada de madeira.

A imagem era diferente de tudo que ela já tinha visto.

Os amigos se mostraram indiferentes ao achado da amiga paranóica.

Coisas daquele tipo sempre aconteciam com ela.

Por essa razão, acabavam sendo banalizadas.

Talvez esse fosse o motivo mais forte que unisse Rachel ao grupo.

Eles eram indiferentes.

Não a julgavam.

Mas ela insistiu desta vez.

Tinha certeza de que, no dia anterior, aquele desenho não estava ali.

Mark esfregava a nuca, tentando montar a memória da noite anterior.

— Eu fiz alguma merda?

A pergunta veio no meio da explicação de Rachel, dispersando completamente o assunto.

Kevin se manteve ao lado dela outra vez.

Sempre perto demais.

Ainda mais depois daquela noite.

Kevin tinha acordado com o coração quente, cheio de esperança… mas, assim que Rachel acordou, ela tratou de cortar os novos avanços do amigo.

— Você devia entrar na água hoje…

Ele disse, com leveza forçada, abraçando-a de leve.

— Vai te fazer bem.

Rachel não respondeu.

Apenas olhou.

Para um lago… para o outro… e de novo.

Mais uma vez, nada viu.

Porém, o lago trazia impressões de uma memória passada que ela nunca conheceu.

A cabana mais distante

Mark encontra a cabana mais distante

Mark respirou fundo.

— Vou dar uma volta.

Ele disse, já se afastando.

Ninguém o impediu.

Lisa, Amanda e Travis foram para o lado. Eles viajaram, passaram a noite naquele acampamento abandonado, para viver aquele momento.

E nada mais.

No trajeto de Mark, o som do lago ia ficando mais longe.

Mark percebeu sem perceber.

Ele olhou para trás.

A cabana onde estavam, pequena e familiar, agora parecia distante em meio a tantas cabanas abandonadas.

Então ele viu.

A cabana mais isolada.

Mais distante do que qualquer outra deveria estar.

Não havia trilha levando até ela.

Mas, ainda assim, ela existia.

Afundada de leve em um dos lados.

A madeira escurecida como se tivesse absorvido chuva por décadas.

As janelas… fechadas por dentro.

Nos arredores, alguns artesanatos um tanto bizarros.

Mark engoliu seco, pois provavelmente estava em meio à cultura ancestral dos seus antepassados.

— Deve ser aqui…

Falou, mas não parecia convencido da própria voz.

Ele se aproximou, já pensando em acender um.

O clima merecia mais leveza.

Assim, cada passo não ficaria mais pesado que o anterior.

Mais lento.

Não por medo consciente.

Mas porque alguma parte dele não queria completar aquele caminho.

A porta estava entreaberta.

Um vão pequeno que dava acesso a uma sala escura, sem movimento, sem som.

Por um instante, hesitou.

O odor ali dentro era desagradável.

A cada passo, o chão rangia, chamando atenção desnecessária.

Mais adereços estranhos eram percebidos sobre a mesa, a lareira e pendurados por toda parte.

Eram muitos artesanatos para contar.

— Tem alguém aí? Ei, irmão… é você?

Me chamo Mark, estou com o pessoal que chegou ontem.

— Alguém em casa?

— Olha… essas peças aqui são bonitas. Parecem coisa do nosso povo. Eu queria comprar um colar desses.

— Uma lembrança da viagem… e, sei lá, alguma coisa que pareça nossa de verdade.

Como não houve resposta, Mark avançou pelo corredor.

A primeira porta à direita estava aberta, revelando um quarto simples.

Depois veio a cozinha.

Ali, o cheiro ficava ainda pior, com presença de moscas e baratas.

Mas algo parecia conduzi-lo até a última porta do corredor.

Ele bateu, chamou por alguém e, em seguida, segurou a maçaneta da porta.

E foi nesse instante que algo mudou dentro dele.

Uma lembrança que não era dele.

Um lampejo… no lago… depois, gritos.

Mãos segurando alguém.

Empurrando.

Afundando.

Agonia de algo que ele nunca sofreu.

Ele piscou, e a visão sumiu, mas o peso ficou.

— Que porra foi essa…

Ele empurrou a porta, que abriu sem resistência.

O quarto que esperava por alguém

Era um quarto grande.

Parecia estar esperando por alguém.

O cheiro veio primeiro.

Ferro, umidade, algo doce… estranho.

Não era decomposição comum de um interior abandonado.

Era algo manipulado.

As paredes estavam cobertas por símbolos desenhados em carvão.

Frascos com líquidos turvos.

Linhas que não se fechavam corretamente, como aquelas encontradas inicialmente.

Círculos imperfeitos.

Repetição obsessiva.

Quando percebeu, estava longe da porta, próximo de duas camas com mesas de cabeceira.

Porta-retratos antigos revelavam uma família: provavelmente mãe, pai e filha.

Havia também o desenho de um homem negro de meia-idade.

Ele lembrava muito o desconhecido.

Mas algo no chão chamou atenção.

Logo abaixo dos pés de Mark, retas desenhadas seguiam para várias direções.

Ao unir os pontos, ele percebeu que estava sobre um pentagrama.

Logo deu um passo para trás.

O piso rangeu alto demais desta vez.

O som não se dissipou.

Parecia ecoar dentro da própria madeira.

Neste momento, viu algo que evitou olhar diretamente.

Algo pequeno demais para ser confortável.

Algo humano demais para ser ignorado.

— Cara… isso aqui…

A frase morreu quando alguém o percebeu.

Havia um som fácil de ignorar.

Muito baixo… uma respiração… próximo.

Não era a dele…

Então, Mark virou.

Duas mãos desconhecidas caíram sobre seus ombros.

Logo depois veio a voz seca… cansada… antiga.

— Você não deveria ter vindo aqui.

Continua

Mark entrou na cabana mais distante procurando respostas.

Agora, talvez tenha encontrado alguém que sabe demais sobre aquele lugar.

Ou algo que esperava por ele desde o primeiro passo.

Na próxima parte, o passado de Lake Lanier começa a respirar dentro da casa.

Siga para a parte 3

Referências:

Embora Afogados faça parte do universo ficcional do Último Refúgio RPG, parte da atmosfera do conto nasce de um lugar real: Lake Lanier, na Geórgia.

Aproveite também para conhecer uma das maiores influências do horror cósmico no universo Último Refúgio RPG. O livro proibido criado por H. P. Lovecraft ajuda a entender melhor a ideia de conhecimento perigoso, maldições antigas e forças que a humanidade jamais deveria despertar. Leia também: O Necronomicon: o livro proibido que virou lenda no horror cósmico.

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