As Crônicas de Max: Silêncio em Seattle – Parte 4

Resumo: Cercado por Corredores, Max ultrapassa o limite entre soldado e monstro, enquanto Damon prova que ainda existe humanidade no fim do mundo.
Tempo aproximado de leitura: 8 a 9 minutos.

Quando o Limite Quebra

Seattle, 14 de outubro de 2031.

O primeiro Corredor veio como lâmina voraz. Max desvia no último segundo.

O corpo da criatura se choca contra o carro — e esse único instante foi suficiente.

O facão atravessa o crânio parando no tronco.

Outro veio por cima. Max girou. Desviou por centímetros. Contra-atacou.

Reação pura. Sem pensamento. Mais um corredor dilacerado.

Mas então ele percebeu algo inesperado. Um deles não veio. Foi direto para o grupo…

Max correu porque já havia falhado uma vez. E não faria de novo.

O corpo como escudo

Damon tentou reagir, mas foi alcançado.

Ombro ferido. Mira instável. Tiros insuficientes.

A criatura não parou. Saltou.

Damon se virou. Protegendo a jovem com o corpo.

Impacto iminente. Morte certa. E então…

Max chega. Não correndo como um humano normal. Mas como um projétil.

A colisão desvia a criatura no ar. O impacto dela contra a carcaça de um carro ecoou como uma ruptura.

Mesmo transfixada por uma barra de ferro retorcida do veículo, não desistiria do ataque.

Outra chegou muito rapida. Só dava para proteger usando o próprio corpo.

Max sente as garras da criatura pela primeira vez. Neste momento, algo mudou…

O monstro dentro do soldado

Uma estranha aura subiu pelo corpo de Max.

Não era humano. Seus olhos perderam o brilho. Ficaram vazios de tudo.

As veias saltaram. Os punhos começaram a arder.

Não era fogo. Era algo pior.

Um grito gutural varreu um raio de 15 metros. Uma onda sonora que parecia tocar a pele dos sobreviventes.

Já não existia mais diferença entre um necrófago e o soldado.

Logo os Corredores iriam descobrir da pior forma possível a fúria de Max…

O combate agora não seria mais com armas. Então veio o primeiro soco afundando o torso de um corredor que chegou pela frente.

O segundo soco abriu o crânio de outro corredor que chegou pelo flanco esquerdo.

O terceiro atingiu em cheio um deles que chegou pela retaguarda mirando a cabeça do Max.

Por último, veio aquele preso nas ferragens. Sua execução foi rápida…

Depois veio o silêncio.

Max respirava como se estivesse lutando contra o próprio corpo.

Mas ainda não havia terminado. Outros vieram. E ele reagiu com mais selvageria.

Braços rasgados. Peito dilacerado. Sangue escorrendo pelo corpo.

Max ainda estava de pé. Ainda lutando contra a morte certa. Apenas atacava sem pensar.

E então, virou-se…

Outro alvo. Desta vez era Damon.

Camarada

Mesmo assim o punho foi preparado. Era rápido demais. Inevitável para um humano normal.

Damon não reagiu. Não tinha o que fazer. Apenas ficou e falou:

— Eu não ia te deixar camarada.

Simples. Direto. Humano.

E isso quebraria algo dentro do monstro diante dele.

O punho de Max parou a um palmo do rosto. Tremendo. Ainda quente, mas oscilante.

E pela primeira vez, o grandão recuou.

Max respirou. Forçou o controle, arrancando aquilo de dentro.

Os olhos voltaram ao normal.

Ele viu Damon de verdade, baixando o braço devagar.

A luta ainda não tinha terminado. Mas agora… havia escolha.

Um novo impacto nas suas costas. Outro Corredor. Mas desta vez… consciente.

Damon gritou:

— Atrás de você!

Max, mesmo ferido e exausto.

Pegou o cano das mãos do amigo para aplicar o golpe final. O cano atravessa a cabeça da criatura. Ameaça encerrada!

Silêncio. Dor. Surpresa.

O gigante guerreiro cambaleou. Ferido. Praticamente morto, mas satisfeito por não ter perdido ninguém novamente.

Damon o segurou por um instante:

— Foi mal camarada, mas eu fico por aqui…

Max:

— Tá comigo?

Voz fraca, frustrada.

Damon:

— Eles me pegaram de jeito desta vez! Eu sei que você vai cuidar bem daquela garota. Eu vi seu olhar. Ela deve ser igual a você.

Na esquina, os outros voltaram. Vivos, graças ao soldado moribundo.

Eles não disseram nada. Mas entenderam que Damon não deveria ter o mesmo destino dos errantes.

Algo ali tinha mudado. E não era só o mundo…

O problema não é sobreviver… é continuar sendo você depois disso.

O escritório dos mortos

Max parecia que não iria resistir por muito mais tempo.

O sangue escorria pelo colete. A camisa rasgada colada na pele exibia ferimentos graves. O rosto estava pálido, esvaziado, como se o corpo cobrasse o preço daquilo que havia acontecido minutos antes.

De perto, sua respiração era curta. De longe… parecia prestes a cair.

Já o presidiário foi deixado para trás, agora não mais como um humano…

Naquele momento, não houve julgamento, juiz e condenação. Apenas um criminoso que trocou sua vida pela de uma jovem que nem falava.

Não dava para continuar ali por mais tempo.

Daniel abraça Max marcando o compasso da caminhada.

Logo, um abrigo é encontrado em um prédio de esquina. Portaria destruída, catraca tombada, vidro espalhado.

No primeiro andar, uma sala de reuniões parcialmente intacta. Uma grande mesa de vidro rachada dominava o espaço.

Dali, já era possível ver o objetivo. O bunker. Talvez, o último refúgio.

Era possivel ver o prédio comercial de segurança privada. Fachada de vidro e metal ainda de pé, estacionamentos marcados, totens desligados e uma logomarca pálida que já não prometia nada.

— A gente descansa aqui uma hora, no máximo. — disse Daniel, organizando o espaço com eficiência silenciosa.

— Temos que sair antes de escurecer. — Carter respondeu, contando o tempo com a própria ansiedade.

— A noite não muda nada — respondeu Daniel, calmo.

Carter não concordou. Mas também não tinha argumentos.

Lena se ajoelhou ao lado de Max.

Os cortes nas costelas estavam… estranhamente diferente do que se esperava. Não parecia estar infeccionado. Não estava inflamado.

— Isso não tá normal… — murmurou.

A pele parecia desejar uma recuperação rápida. O sangue trabalhava como nunca para fechar a ferida.

A jovem no canto

Enquanto isso…

A jovem catatônica ficou sentada no canto da sala. Seu olhar perdido parecia que tinha achado algo.

Carter se incomodou com o olhar da menina. Situação estranha. Assustadora.

— Por quê você está olhando para mim? Por quê? Carter parecia temer algo.

A drogada não mudou sua fisionomia. Não respondeu.

Lena sinalizou que a jovem não tinha saído do transe. Carter relaxou, mas não baixou a guarda.

Os gritos não acordaram Mia que dormia no colo do pai, ainda quente, mas estável.

Max por sua vez, apenas encostou a cabeça na parede. Olhos fechados.

Por fora, quebrado. Por dentro… reorganizando-se.

O tempo passou. Quarenta minutos.

O ferimento ainda parecia grave, mas estabilizado.

Para a médica do grupo, aquela cura não fazia sentido.

Milagre, ela também não acreditava muito…

Uma hora completa e Mia abre os olhos. Muita suada. A febre tinha cedido um pouco mais.

Lena era uma médica experiente. Pouco religiosa. Mas soube agradecer pelo milagre da filha.

Carter não conseguia parar de olhar pela janela. O bunker parecia próximo. Quase ao alcance de uma corrida.

— Temos que ir. Agora.

— Vamos — respondeu Max, levantando-se.

Ele estava de pé para a surpresa de todos. Não curado. Mas funcional.

Carter recuou meio passo. Lena respirou aliviada.

— Vamos devagar. Compactos. Sem chamar atenção.

A empresa ainda viva

Eles avançaram. Daniel comportava a drogada em seus braços. Parecia um pai com sua filha mais velha.

Rapidamente, o pátio da empresa foi alcançado, mas algo parecia estar errado.

Errantes vagavam entre as vagas de estacionamento.

Uniformes. Crachás. Pranchetas.

Alguns batiam na guarita. Outros repetiam tarefas do cotidiano.

Um alinhava cones de trânsito. Outro varria o chão inexistente, sem sair do lugar.

Rotinas. Sem propósito.

— Meu Deus… — Lena sussurrou.

— Olhem, podemos entrar pela entrada principal — disse Daniel.

As linhas brancas guiavam os passos. Como trilhos.

O grupo avançou em ziguezague. Carros. Colunas. Sombra.

Um mural ainda estava intacto:

“Proteja o perímetro. Confie na equipe. Preserve a calma.”

Uma piada morta.

Então um deles parou. Depois outro… mais um…

Segundos depois, muitos já bloqueavam o caminho até a entrada principal.

— Rápido, vamos para a porta da garagem — disse Max.

Carter correu até o destino indicado.

Para sua surpresa, o leitor óptico estava ativo.

O prédio ainda parecia estar vivo. Alguma energia mantinha a tranca elétrica funcionando.

O crachá é lido pelo terminal.

Beep. Nada…

De novo.

Beep. Nada…

Max observou. A porta estava travada e não trancada. Metal retorcido. Bloqueio físico que impedia a abertura da porta.

Os errantes se aproximavam. Não rápido. Mas suficientes para impedir uma fuga.

— Sai. Eu faço.

Max se posiciona na porta. Sem energia para “queimar”. Apenas força bruta.

Tentou a primeira vez. Nada…

Mudou o ponto de contato. Forçou mais baixo.

Um estalo… Mais força… Um esforço quase sobre humano.

— Carter. Agora! — grita Max.

Beep. Clunk. A porta cedeu.

— Entrem! Rápido!

Max avança para tentar impedir a aproximação. Ele reage rápido, acertando precisamente cada ataque com seu facão de selva.

Carter segurou o painel. A porta descia. Todos já tinha passado, só faltava Max.

Max entra por último. Puxou. Forçou para baixo.

A lâmina travou no chão. Do outro lado… Batidas. Arranhões. Pressão.

Do lado de dentro, uma rampa descendo. Silêncio. Luzes de emergência piscando.

Lá embaixo, era possível identificar uma garagem aparentemente vazia. Mas não segura.

— A porta que entramos não vai segurar muito tempo aquelas criaturas — disse Max.

— Onde é o acesso? — perguntou, direto.

— Lá embaixo — respondeu Carter.

Eles desceram…

O ar ficou denso pelo concreto úmido, óleo velho, odor de morte.

O som dos errantes ficava distante. Quase esquecido.

Mia dormia. A febre tinha reduzido bastante.

A jovem catatônica estava viva? Um suspiro? Algum movimento? Ninguém sabe.

Independente de qualquer coisa, Max caminhava atrás. Vigilante. Ameaçador. Pronto.

Uma porta de elevador com um leitor ótico estava próximo.

O destino final foi alcançado. Mas infelizmente, o custo foi a vida de um homem. Duas vezes condenado.

Agora basta destrancar a porta com o código usado pela diretoria da empresa…

Continue na próxima parte: Algumas Portas Não Deveriam Ser Abertas

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