As Crônicas de Max: Silêncio em Seattle – Parte 2

Resumo: Quando a horda alcança a van, Max deixa de ser apenas observador e precisa decidir que tipo de sobrevivente ainda é.
Tempo aproximado de leitura: 8 a 9 minutos.

A Linha Que Ninguém Quer Cruzar

Seattle, 14 de outubro de 2031.

Dois necrófagos surgiram primeiro. Depois cinco. E, em seguida, uma massa disforme começou a se formar na esquina — carne rasgada, passos arrastados, corpos que avançavam sem coordenação, mas com propósito inevitável.

O cheiro veio antes da visão completa. Pútrido. Espesso. Familiar demais para os poucos sobreviventes que restaram.

— Eles estão vindo! — gritou o homem, a voz quebrando ao tentar avisar os outros.

— Cala a boca e pega qualquer coisa! — respondeu o presidiário, com uma arma em mãos trêmulas.

Mas a única coisa disponível era uma chave inglesa. Pesada e aparentemente inútil.

A mulher voltou para dentro da van com a criança nos braços. O rosto dela era puro pavor, olhos marejados, corpo tenso entre correr e se proteger no seu interior.

O pai se posicionou à frente das portas traseiras da van, segurando a chave como se aquilo pudesse fazer diferença. Não podia.

A horda avançava. Tropeçando. Se chocando. Mas impossível de ser detida.

Lá em cima, Max observava.

E então… algo dentro dele se moveu. Não foi decisão. Foi reflexo. Um impulso antigo, enraizado antes mesmo daquilo que ele havia se tornado.

Memória talvez? Ou o momento derradeiro para agir sem cálculo, sem hesitação.

O homem que saiu do silêncio

Max movia-se rápido para o seu tamanho.

Desceu as escadas como se o próprio espaço cedesse passagem. Os passos não ecoavam. O corpo não hesitava mais como na sua lembrança.

A porta cedeu sob seu ombro. A madeira não apresentou resistência.

O mundo se estreitou no beco.

E então explodiu.

O primeiro disparo quebrou o silêncio como um trovão. Depois outro. E outro…

A metralhadora cuspia fogo em cadência precisa, cada projétil encontrando seu destino com eficiência simétrica. Necrófagos caíam. Corpos já sem vida, eram despedaçados. Crânios de pessoas comuns eram rompidos.

Max não atirava com raiva. Nem com pressa. Atirava como alguém que já sabia o resultado antes do fim.

Cada passo era calculado. Flanco direito. Recuo. Avanço. Reposicionamento. Protegendo sem tocar. Eliminando um a um em silêncio.

Para os sobreviventes, aquilo era um milagre violento.

Um homem surgido do nada, transformando o inevitável em um adiamento, ainda que temporário.

O último necrófago caiu com um som seco.

E então veio o silêncio… Mas não por muito tempo. Um choro. Frágil. Tremido.

A menina. Uma jovem esperança em uma terra devastada…

Depois dos tiros

— Quem… quem é você? — perguntou o pai, ainda sem entender o que acabara de acontecer.

Max não respondeu.

Ele retirou o carregador, verificou a munição restante e preparou a arma com movimentos silenciosos. Os olhos dele não estavam nos sobreviventes, mas no entorno. Sempre no entorno.

O presidiário aproveita para recarregar a pistola. Demonstrava que sabia o que estava fazendo, pois acertou alguns bem na cabeça.

A mãe segurava a filha com força, enquanto demonstrava autoridade médica nos seus cuidados.

A calmaria daquele momento não parecia real. Nunca era para Max.

Um som atrás da van. Passos…

Um homem de terno surgiu, cambaleando. O olhar corria entre os corpos espalhados e a rua, incapaz de acompanhar a realidade.

— Acabou? — ele perguntou, deixando escapar um riso curto, nervoso. — Estamos… salvos?

Ninguém respondeu.

— O veículo funciona? — insistiu, o homem agora mais urgente.

— Não vai a lugar nenhum — disse o presidiário.

A promessa do bunker secreto

O homem arrumou o paletó rasgado, como se construísse autoridade com gestos. Um executivo talvez.

Respirou fundo, olhou para o Max e apontou para o norte.

— Eu tenho um bunker seguro, com comida e armas!. Se chegarmos lá… a gente vive.

Então indagou seu salvador.

— Com você, a gente chega. Sem você… a gente morre! Ficou bem claro naquele momento.

O silêncio que seguiu era mais pesado que os tiros.

O pai apertou a chave inglesa. A mãe apertou a filha.

E então o executivo falou novamente:

— A garota não vai aguentar!

A voz endurecida.

— Deixem ela aqui! Vai nos atrasar ainda mais!

O peso morto

O mundo parou por um instante.

— Você está louco? — a mãe engasgou. — Ela é uma criança, podia até ser minha filha mais velha!

— Ela é um peso morto! — ele explodiu. — Vocês viram!

Ela não reage, não anda, não ajuda!

Vai matar todo mundo! A verdade, dita da pior forma possível.

O medo o consumia. Não a coragem para propor aquela situação.

— Se ficarmos com ela, ninguém chegará lá. Ninguém — completou, já tremendo.

Então olhou para Max, buscando validação.

— Você sabe disso, não sabe? Sacrifícios são necessários.

O silêncio se abriu como um abismo.

Max não se moveu. Mas algo por trás dos olhos dele reagiu.

E então ele viu…

Na sombra da van. A jovem. A mesma de antes? Imóvel. Cabeça baixa. Presença inexistente.

Não era coincidência.

O mundo ao redor pareceu se estreitar, como se tudo levasse àquele momento.

Ninguém fica para trás

Max deu um passo à frente. Lento. Irreversível.

Quando falou, a voz estava baixa. Mas definitiva.

— Ninguém fica para trás.

Não houve discussão. Foi decisão.

O homem do terno recuou. A mãe chorou em silêncio.

O pai respirou, como se tivesse voltado de algum lugar escuro demais.

O presidiário não disse nada. Apenas foi até a van e retirou a jovem com cuidado.

— Você vai matar todos nós… — murmurou o homem do terno.

Max não respondeu. Porque talvez fosse verdade. Mas não da forma que ele imaginava.

Ao fundo, o vento mudou. E com ele… vieram os sons: Mais passos. Mais arrasto. Mais fome.

A ameaça nunca dormia. E Max já sabia que nem todos chegariam até o final.

Decidir quem vive… é fácil. Difícil é decidir quem você continua sendo depois.

Onde nomes pesam mais que bala

O beco ainda respirava a batalha.

Cheiro de pólvora, sangue coagulado e carne morta começando a esfriar sobre o asfalto. Ao redor da van destruída, o grupo se reunia como destroços de um naufrágio.

As cápsulas espalhadas no chão refletiam a luz fraca, como pequenas moedas cobradas por sobrevivência.

Max permaneceu por último. Imóvel, na borda da rua. Observando.

Esperando que o caos decidisse se havia terminado… ou apenas mudado de forma.

Carter ajeitou a gravata rasgada com um gesto inútil. Um reflexo de quem ainda tentava sustentar alguma dignidade.

— Bem… já que vamos seguir juntos… como você se chama, soldado?

Max ajustou a arma no ombro e pronunciou:

— Max.

Carter assentiu, como se tivesse recebido algo valioso.

— Ficarei feliz em recebê-lo no meu bunker.

Ele lançou um olhar rápido aos outros, tentando afirmar uma liderança que não sustentava mais.

Já o presidiário encostou a jovem catatônica contra a parede. Sem delicadeza. Mas também sem crueldade.

O braço tatuado surgiu no movimento — serpentes, caveiras, marcas de uma vida difícil.

— Damon.

Ele soltou um meio sorriso seco:

— Não espere simpatia.

A mulher apertava a filha contra o peito.

— Lena… — disse, suave, tentando estabilizar a própria voz. — E essa é minha filha Mia.

A menina queimava em febre, o corpo pequeno de seus 9 anos tremendo contra o dela.

O homem de olhar controlado observou Carter por um segundo. O suficiente e disse:

— Daniel.

Nada mais.

Damon olhou para a jovem encostada. Imóvel. Olhos vazios. Ausência total.

— E essa aqui… ninguém sabe.

Ele deu de ombro:

— Chamamos de “drogada”.

Daniel franziu o rosto. Lena evitou olhar. A jovem não reagia a nada. Não piscou. Não respirou diferente. Estava ali, mas parecia não estar.

Max observava tudo e principalmente a jovem catatônica. Não apenas o que diziam… Mas o que ela escondia.

Então falou:

— Nomes não mudam nada.

O olhar desceu até as cápsulas no chão para dizer:

— Só tornam a morte mais pesada.

Ninguém respondeu… O silêncio cresceu entre eles, tenso como uma corda prestes a romper.

Ainda em silêncio, vieram os passos que levariam o grupo para um novo ponto, longe do beco e mais perto do bunker.

De repente, um som profundo atravessou os prédios. Um zumbido. Grave. Vibrante.

Carter empalideceu.

Damon sacou a arma.

Lena apertou Mia com força.

Daniel ergueu o olhar.

Enquanto a jovem catatônica permanecia igual.

Max levantou a cabeça, pois o som não era apenas ouvido. Era sentido… No ar. No corpo.

Aquilo não era ruído. Era um terrível aviso que algo ruim estava chegando!

Nem toda ameaça caminha pela rua… algumas descem do céu.

Continue na próxima parte: Quando o Céu Caiu Sobre os Sobreviventes

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