A Estrada Não Esquece – Parte 04

Resumo: Ferido e quase vencido, Mateo é salvo por Clara, mas a morte dentro da casa ainda não terminou de cobrar seu preço.

Tempo aproximado de leitura: 6 minutos.

Uma morte rápida

Aragón, Espanha, 14 de dezembro de 2030.

Por um instante, o mundo de Mateo foi tomado por uma escuridão antiga.

Um espectro de luz pareceu decidir por Mateo:

— Ainda não é sua hora.

Por um momento, Mateo teve certeza que era sua esposa amada.

Mas não demorou para o mundo voltar em fragmentos, o suficiente para que ele visse quem o havia salvado…

O mercenário ainda estava sobre ele.

A luz revelou a filha segurando um atiçador de lareira, com a ponta cravada no mercenário.

O sangue que escorria denunciava mais uma fatalidade naquela sala.

A vingança estava feita e Mateo continuava vivo.

Então veio a dor da mãe…

E apenas a filha tentando sustentar tudo.

Mesmo ferido, Mateo ajudou a filha na aplicação dos primeiros socorros à mãe.

— Deixa eu te ajudar.

A filha retruca:

— Mas você está bem machucado também.

— Eu me recupero rápido, pode acreditar.

— Você vai ficar bem, pois o projétil atravessou seu ombro.

— A propósito… se vocês não tivessem fugido, provavelmente nada disso teria acontecido.

A filha abraçou a mãe e, enfim, elas se apresentaram ao homem que havia surgido no pior momento possível.

— Me chamo Lucía Vargas… e esta é minha filha, Clara.

— Obrigada por nos salvar.

Mateo olhou para Clara. Ainda havia sangue escorrendo pelo seu rosto, mas, mesmo assim, ele tentou sustentar algo parecido com um sorriso.

— Me chamo Mateo… e, para ser justo, quem salvou alguém aqui foi sua filha.

Clara não respondeu. Apenas apertou a mãe com mais força.

— Mesmo assim… ainda bem que eu cheguei a tempo de ajudar um pouco.

Mesmo sob grande tensão, ferido e cercado por mortes recentes, Mateo ainda encontrou espaço para aquele humor seco. Não era leveza. Era só a forma dele dizer que, por enquanto, todos ainda estavam vivos.

Carmen Ortega

Enquanto isso, a velha continuava velando o corpo do marido.

— Ela é Carmen Ortega. Nos acolheu… mas eu sabia que não estávamos seguras com aqueles homens.

O tempo corria. E cada minuto importava.

Mateo sabia o que viria a seguir…

Pediu que Carmen se afastasse do corpo do marido.

Com quatro corpos ali dentro, ele sabia exatamente o risco. Mas Carmen ignorou.

Mateo não insistiu.

Ele era um Renascido. Aprendeu a aceitar as escolhas dos outros.

Com mãe e filha ali, ele ofereceu uma saída.

Mas alguns minutos oeciosos já haviam se passado.

O suficiente para o corpo… reagir.

Primeiro a cabeça inclinou-se.

Os braços responderam com atraso.

Devagar.

O suficiente para o velho levantar-se.

Mas agora… não era mais o mesmo homem.

Mateo o identificou na hora: Era um Flagelo.

Seu corpo deformado carregava um flagelo de dor, agonia, vingança e ódio.

— Ele agora não era mais o marido de Carmen, mas sim um dos mais terriveis necrófagos que já tinha cruzado seu caminho.

— Temos que sair daqui. Agora!

Carmen já não estava lúcida. Não mais…

Acreditava que o marido tinha voltado.

O Flagelo da Dor

A Estrada Não Esquece - Parte 04

O velho avançou… e começou a gritar.

Rápido.

Inevitável.

Ensurdecedor.

O grito não apenas rompeu o ar… atravessou o corpo.

Como se a dor dele tentasse encontrar outro lugar para existir.

O impacto foi brutal.

Um golpe amplo — Carmen foi lançada contra um móvel.

Um som seco.

Impacto fatal.

Do outro lado da sala, Lucía e Clara sentiram o grito diretamente na mente.

Mateo conseguiu resistir.

Viu mãe e filha vulneráveis — e reagiu rápido.

Sua espingarda subiu uma vez mais.

Um único disparo certeiro contra a cabeça encerrou a ameaça — e o grito cessou.

Mateo precisava tirar mãe e filha dali.

No mesmo instante, os corpos dos mercenários começaram a se mover.

As cabeças se ergueram em ângulos impossíveis.

Os rostos estavam desfigurados: bocas deformadas. Olhos escurecidos. Pele pálida.

Com as armas em punho, eles avançaram para fora sem hesitar.

— Temos que chegar ao carro.

— As chaves!

Lucía correu para pegá-las.

Mateo sabia que o grito também funcionava como chamado.

Necrófagos surgiam no terreno seco, um após o outro.

Avançando, ainda dispersos e pouco visíveis.

Lentos — mas inevitáveis.

O carro estava no caminho da horda.

A mãe puxou a filha.

Mateo puxou a mãe — instinto puro.

Havia pouca distância de segurança.

Dessa vez, ele não controlava o terreno — ele não estava sozinho.

Até o carro

Estrada
Estrada

Mateo reduziu sua marcha para garantir a segurança delas.

Espingarda de cano serrado preparada.

O necrófago mais próximo não teve nenhuma chance contra um impacto em curta distância.

Lucía tinha pouca proficiência com o fuzil, mas conseguiu atingir outro em cheio.

Clara não ficou atrás.

Primeiro, um disparo de pistola no tronco — fácil.

Depois, na cabeça.

Mateo elogiou a mira de Clara e pediu para Lucía segurar firme a arma.

Próximo ao carro, Mateo percebeu movimentos vindos de pontos que elas não podiam ver.

Mais disparos.

Mais corpos no chão.

Mateo recarregou duas munições para o próximo disparo.

Sempre existe um próximo.

E mais um.

Menos munição disponível.

Mais necrófagos por todos os lados.

Eles chegam…

Clara foi a primeira a entrar no carro, enquanto Mateo e Lucía defendiam o perímetro.

Depois Lúcia entrou.

Logo assumi o volante.

Mateo pede para assumir a direção.

Novos gritos chegaram como uma onda de choque até o carro.

Os mercenários e a velha gritaram de forma gutural como novos Flagelos…

Lucía e Clara sentiram a agonia dos mortos.

Era um sofrimento atordoante. Algo que desnorteava os sentidos…

Ao memso tempo, sentiam pena de Carmen.

Ela não merecia este fim.

Mateo fechou rapidamente a porta.

Não se importava mais com os mortos e suas histórias.

Assumiu o volante, enquanto Lucía passava para o banco do carona.

Ela não estava bem, mente e corpo agonizavam juntos.

E aí veio a aceleração máxima.

Clara não via a estrada.

Não via um caminho seguro para chegar até ela.

Mateo não precisava ver a estrada — ele sabia exatamente onde ela estava.

No caminho até a estrada, dois necrófagos foram atropelados.

Enquanto outros foram evitados.

Deixados para trás, os mortos voltaram a contemplar aquilo que já não eram mais…

Os Flagelos da Dor silenciaram o grito, mas não a dor que nunca se cala.

Mateo, Lucía e Clara desapareceram na curva da estrada.

Lucía apagada no banco de trás.

E a estrada…

Continuou para uma próxima história… Para buscar o Último Refúgio…

Morte Rápida
Morte Rápida

Leia também:

Conheça o perfil completo de Mateo Álvarez, onde o passado, a culpa e a sobrevivência continuam guiando seus passos pelas estradas de Aragón.

Em meu conto, Aragón aparece marcada pelo céu carmesim, pelo silêncio das estradas abandonadas e pela sobrevivência em meio ao colapso. Mas, no mundo real, a região também carrega uma identidade forte, com paisagens naturais, vilas históricas, castelos, rotas culturais e cenários que ajudam a imaginar a solidão e a beleza dura presentes neste conto.

Para conhecer melhor a localidade que inspirou a jornada de Mateo, visite o site oficial de turismo de Aragón.

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